20 de janeiro de 2024

Pardo I

 


descobri através dessa banca que minha vida é uma fraude, que eu não pertenço a grande maioria dos brasileiros deste pais que através da miscigenação, do estupro, da opressão e embranquecimento de uma população, sofre diariamente para ter acesso aos direitos renegados historicamente a uma população interia.

Uma fraude de uma vida inteira. Já não foi o suficiente a minha trajetória para estar onde estou e ser quem eu sou, e entender que meu corpo é o que me define e que devo me alegrar de tê-lo, tenho que receber através de um edital frio a decisão da minha identidade através de uma comissão que não me reconhece. De fato não sou retinto, de fato não passarei pelos desprivilégios sociais que acomentem a população negra desse pais, mas tão pouco sou branco e irei usufruir das benesses dadas por uma sociedade pós escravocrata possui.

Em minha defesa, mesmo que ache que não é cabida porque sou pardo, indago primeiramente se esta comissão julgou por uninimidade minha aparência como caucasiana. Se a esta comissão não suscitou para sí sequer a dúvida ou a indagação sobre minhas origens e meu cotidiano e minha aparência. Se sim, foi unânime, que não seja considerada o meu recurso e que se a sociedade me vê como pessoa branca eu humildemente entenderei que eu durante todos esses anos de vida fui apenas uma pessoa confusa e ignorante sobre a questão étinica.

Mas agora se houve tal dúvida, que prevaleça a minha declaração de que sou pardo. Ora porque eu acredite que não é esta comissão que define  quem eu sou, ora porque não será a constatação desta comissão que me fará deixar de ser lido por meus colegas, familiares e estranhos como não branco, e ora por que eu tenho convcção de que branco não sou e nunca serei.

Por fim, me entristesse profundamente, para não dizer que me tornei perturbado, de que para além das tantas violências silenciosas que uma pessoa parda sofre fui acometido por mais uma, e de forma institucional. 

Não valeu minha autodeclaração de nada, não vale as minhas experiências de vida o que vale é apenas a constatação de um comitê por maioria a me dizer que sou um homem branco. Anos de terapia não serão suficientes para arrumar a fraude que me tornei perante a sociedade e perante a mim mesmo, serão decadas.

Peço humildemente, que reconsiderem esse descalabro que é considerar uma pessoa não branca como branca, peço que olhem e reflitam sobre o contexto deste pais e de quem nele é considerado branco. Se me pus a esta comissão para ser avaliado, foi a contragosto, por que no mesmo sentido que uma população inteira foi discrimidada pela aparencia hoje sou eu excluído da história desse pais ao me colocarem no balaio de uma população privilegiada de que nunca fiz parte.

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