2 de setembro de 2024
Um breve relato em crônica
Olá, há quanto tempo? Ein,
Está me lendo do futuro que eu
sei!
Hoje me peguei lendo alguns
textos de 10 anos atrás, e vi o quão divertido é reler o passado, de uma forma
em que parece que o texto foi escrito deliberadamente para informar sobre os
acontecimentos mais quentes daquele momento.
Estou me propondo a escrever
agora para você, por que sei que vai adorar reler logo aí no futuro, um breve
relato, do que na minha memória está bem vivo ainda.
Bom, quero lembrar primeiramente,
que você há poucos meses, 4, para ser mais exato tomou uma decisão muito boa.
Não sei se consegue lembrar exatamente a sensação, mas foi um livramento – olha
só o primeiro aposto, pra falar que o livramento é uma ótima referência bíblica
e que usá-la é ao mesmo tempo uma sátira e uma crença. Saímos de um emprego de
quase 6 anos na prefeitura de são Paulo. Você se tornou um ótimo especialista
em função social da propriedade, e hoje está caminhando para se consolidar como
um trabalhador e empresário na área.
Vou te lembrar que os anos na
prefeitura foram muito bons, o salário te proporcionou a retornar a são Paulo depois
de um hiato em campo limpo paulista, em 2017 e 2018. Começamos a morar sozinhos,
nossa primeira vez, na av. Duque de Caxias, na altura da esquina da Av. São João,
bem no centro de são Paulo. Afinal viver coladinho a Santa Cecilia e de quebra ao
lado do trabalho foi um tesão por muito tempo.
Passamos uma pandemia juntos, primeiramente
na kitchenette da Duque, que era mais um quitão, tinha uma cozinha pequena e
charmosamente irregular, e uma banheira pequena que deu pra relaxar 2 ou 3 vezes.
Depois no apartamento da Rua Ana Cintra, com seu 1 quarto, janela grande e sua
cozinha com chão de azulejo vermelho, e que tinha muito da estética da casa do
avô Carlinhos no bairro do Marsola, em Campo Limpo, tente lembrar das paredes texturizadas.
Já estamos em 2020 indo para 2022, o tempo passou diferente nesse momento.
Lembra que a gente chorou? Naquele
aniversário de 27 anos, achando que as coisas iam começar a ser diferentes, e o
tempo estava passando e que as relações de você com você mesmo eram outras – de
certa forma mudou, e foi mudando, mas não foi a tragédia de corte seco que você
achou que ia ser, foi bem fluído, e deu tempo de viver horrores, sempre tivemos
a mania do ansioso de achar que o mundo esta para a acabar amanhã, e mesmo que
estiver, o amanhã ainda está por vir.
Nos apaixonamos na pandemia
também, brevemente, pelo Danilo. Um cara muito gentil, atencioso, inseguro e bom
de cama – o segundo aposto, ele era bom de cama no começo depois ficou tão blasé,
a insegurança dele transbordava nos olhos e nos fazia brochar imediatamente,
você tinha começado a sentir sentimentos de pena e fraternais e por isso achou
melhor conversar com ele sobre aquilo, e não deu muito certo, ele mexeu nas
conversas do seu celular e não suportou que você sentia prazer para além do
relacionamento com ele – durou pouco, foram 3 meses intensos e 1 mês decadente.
Mas como não tínhamos reconhecido a fragilidade do nosso ego, quando o menino engatou
um outro namoro, enlouquecemos por uma paixão nostálgica irreal, pobre de nossa
amiga Bruna Medici que teve que nos aguentar em uma viagem maluca de fim de
semana chorosa e melancólica, não esquecendo que você tentou ligar pra ele.
Fomos curados com academia, escitalopram e muito Club Prive.
Ave escitalopram, nos segurou
legal antes das sessões de psicanálise começarem. Foi um ano de tratamento,
logo depois do termino com o Danilo, -- terminamos no largo da Santa Cecilia,
logo de baixo da marquise do banco Bradesco, minha cabeça estava pesadíssima, mas
era por conta do escitalopram e seus efeitos colaterais, mais over sobre aquele
relacionamento eu não podia estar --, aliás, quantos muitos bocejos no começo
desse remédio e uma fome de viver com o silencio da não-ansiedade, eu nem
consigo descrever agora. Mas você estava no momento certo para fazer o que queria
fazer, sem sentir culpa.
A pandemia foi uma reclusão não
reclusa em que experimentamos as saídas ao cabaré da Cecilia, e ao Club Privet.
Ficou pelado por troca de caipirinhas grátis, até esse momento não me arrependo
em nenhum momento, nem de não ter transado na pista por que o lugar era meio
pulguento – mas rolou mamadas graças a deus. A mistura de ficar pelado, transgredir
a quarentena e ainda tomar drinks gratuitos fumando em um lugar fechado foi o ápice
da sua juventude rebelde. Foi tudo de bom. Obrigado Filipe.
Lá pelas tantas do final dessa
pandemia horrorosa você encontrou um jovem cientista, que naquela época era um
menininho aos seus olhos, quase um imaculado, o Henrique. Branquinho,
padrãozinho, de boa família e um gostoso. O amor só veio lá para frente, mas
algo magnético te atraia a ele, o avesso do avesso de quem você estava sendo
até então. Talvez fosse para nós mais uma aventura a desbravar, mais um enrosco
prazeroso a se meter, e fomos. Aos poucos camadas de uma memoria esquecida pelo
rebelde foram sendo resgatadas. O amor pela convivência familiar, a parceria e
a confiança apareceram materializados nesse romance que se iniciou. Um rebelde
com várias causas nós somos, mas que a partir de então começou a parar de
negligenciar as relações – foi nesse momento que começamos a entender, ou
melhor questionar, a nossa aversão ao relacionamento amoroso, e os traumas que
carregávamos que nos faziam querer fugir do afeto, tanto por que não sabíamos lidar
com o a rejeição, tanto por que o amor que tínhamos aprendido a receber foi
sempre visto por nós como uma moeda de troca, um escambo que só era dado quando
nos comportávamos da maneira que o Guilherme criança foi aprendido que era
certo. Ainda tropeçamos sobre o tema, mas um pouco mais conscientes de que o
passado está juntinho da gente, o rebelde e o perfeitinho nunca estiveram tão próximos.
Foi também com esse relacionamento, que hoje já dura dois anos que as nossas
sessões de psicanálise se aprofundaram enormemente, ave Freud e escitalopram novamente.
O dinheiro sempre foi justo, mas
nunca foi um problema de fato, depois do diploma de arquiteto e urbanista sua vida
financeira não foi mais do que um perrengue cotidiano, não o misere pre faculdade.
O trabalho na prefeitura durou lindamente, tivemos aumento em 2023, se eu não
me engano, e instauraram a bonificação por resultados em 2019, um tesão.
A partir de agora, eu vou te
contar de uma forma mais apaixonada, isso porque é um passado recente que não
se sedimentou ainda, estamos a flor dos acontecimentos. Você vai sentir o quão
próximo do relato estamos e como as divagações sobre o tema ainda pairam em
nossa cabeça, de maneira que é impossível não as transcrever, as imprecisões podem
aumentar consideravelmente e ainda recomento um texto de resposta no futuro
para ajudar o leitor a entender o desfecho desses acontecimentos, então
sigamos;
As muitas tretas da prefeitura cabem
um texto de memórias a parte, mas a cisão é barbara e relatar isso aqui nos
leva já pra esses últimos 4 meses de 2024. Acredito que junho ou julho de 2023
uma figura sedutora toma a coordenação do departamento. A Amanda, é uma mulher
de trinta e poucos anos com os cabelos longos olhos marcantes e com uma retórica
avassaladora. Olhos de cigana dissimulada, e ela é dissimulada mesmo, um elogio.
Não me apaixonei por ela, porque ela não deu espaço para isso, mas ela
movimentou meus sentimentos e certezas de uma maneira, no mínimo, contraditória
– agora é bom reparar como você usa o eu pela primeira vez no texto inteiro com
gosto, e como isso ainda é uma constante para nós, deve ser engraçado ler isso aí
no futuro, mas a simbologia da figura dessa pessoa tem sido uma odisseia
moderna sobre seu comportamento. Por admirar abertamente seu trabalho e ser
incapaz de satisfazer o desejo dessa mulher você preferiu sair. Ela conseguiu acender
todos os seus medos internos, o da rejeição, o da comparação, do poder e o da inutilidade,
sem dúvidas nenhuma temos um caso claro de alguma tragédia romana, que hoje, eu
não sei o título. Estamos tentando entender como tudo isso, todo esse
sentimento, todo esse movimento funciona lá no divã.
Mas como a fênix que renasce, e
para arrematar o final com o começo – muito brega essa frase, mas eu achei ótima
por que vamos sempre tentar sair com a volta por cima – Fugimos e agora
estamos mentindo pra nós mesmos que estamos no caminho certo, kkry.
observação
do autor: após escrever esse parágrafo, houve uma série de divagações, que
resultaram nos dois últimos parágrafos. Mas venho aqui a posteriori dizer que
já o revisitei e quero retificá-lo; fugimos sim, mentindo para nós mesmo não
estamos, porque diferente de antes conseguimos ver que as razões comportamentais
que te fazem feliz são inerentes a nós, e que entendendo que o fugir é uma
defesa, escolher sobreviver é muito corajoso. Ou seja, você sobreviveu mais uma
etapa da sua vida, você usou as ferramentas que tem para sobreviver e ser feliz.
Vamos juntos, e com certeza, entender se esse comportamento é o único a ser
seguido para você nas mais diversas situações do cotidiano, ou se poderemos
criar novas formas de lidar com os medos do menino Guilherme, que ainda está muito
acuado com tudo isso que é a vida. Mas a coragem que estamos tendo para
investigar o comportamento, também existe nele em si, quando você desvalorizar
esse comportamento lembre que você o faz por que quer sobreviver a pressão que é
carregar as cargas que carregamos, e que está mais do que bem! O resultado
importa tanto quanto o caminho, só estamos tentando achar um jeito de não ter
que carregar junto com a felicidade da armadura esse monte de medos culposos em
conjunto. Estamos procurando uma felicidade independente, uma que não seja com
fardos do passado, uma que seja brilhosa e leve, apenas isso. Alias Obrigado,
por ter dito isso para mim Guilherme do fundo da cabeça.
Escrevendo o último parágrafo fique um pouco inquieto, nossa última terapia foi
bem ao ponto em nos lembrar que é na armadura social do Guilherme criança que nos
sentimos felizes e confortáveis. Até aí, legal, estou aceitando a felicidade do
menino Guilherme. Mas entender melhor o porquê da fuga e o brilho da armadura
serem tão bons vem sendo minha maior empreitada atual. Ainda nessa ultima
sessão a pergunta final foi, “você precisa saber se a vingança (felicidade) do Guilherme
criança ainda cabe para o Guilherme de hoje”. E olha, escrevendo esse breve
relato, acredito que não. Fugir, desviar e renascer não é o que eu quero como
comportamento feliz. Olhar para a Amanda, ver um espelho de potencia e inveja
me trouxe o mesmo modus operandi de anos atrás; não consegui me firmar, não
conseguir bradar quem eu sou, tive que me esconder novamente em uma armadura reluzente
de ouro, pesada e maciça. Brilha muito, é linda, mas é pesada para um caralho. Quando
estamos vestindo ela é o medo de bradar quem somos de verdade, de aceitar nossas
excentricidades, dificuldades, infantilidade, desorganização, hiper agitação, incoerência,
sadismo, inveja, frieza, egoísmo, dissimulação, da vergonha de ser a si em seu
todo complexo. Para o menino Guilherme sempre foi muito bom fingir quem ele não
era para receber o escambo dos outros, por que durante muito tempo ser apenas o
Guilherme não comprava amor.
Falando do hoje, e de como estamos, continuando a aprender mais sobre si. Está sendo bem delicioso, inquietante – eu fiquei em dúvida em colocar a palavra feliz aqui no final, porque esse último parágrafo me deu uma chochada, haha. Mas estou com coragem para novamente ser um rebelde com mais uma outra causa, a de entender os meus medos, aceita-los e vivenciá-los. Sim, feliz e continuamos.
1 de setembro de 2024
Infância
Nostalgia de ser, Tempo.
Casa em construção, elefante rosa com telefone, um mergulho
na piscina de plástico.
Sobre uma bobina de madeira andei de mãos dadas com minha
avó.
Bolhas de sabão reluzentes e fumaça.
Um céu extremamente estrelado.
Duas cachorras inseparáveis, uma criação de ramisters e uma
aquário de lebsters.
Um quintal de terra, sempre com areia.
Pulei varias vezes o muro de casa, ou quando esquecia a
chave ou porque era o melhor portão para a casa do meu vizinho amigo,
Pesquei lambaris, cacei tanajuras, atirei mamonas,
Não fui na igreja para brincar no parquinho,
Sempre tive minha mãe.
Andei de bicicleta pela cidade inteira,
Joguei peão, bolinha de gude, tazzo, e bafo,
Também brinquei de esconde-esconde, pula-elástico, vôlei,
futebol e amarelinha.
Joguei videogame, fiquei brilhante ao ver a coleção de
vinils do meu pai, e adorava ouvir o tape com a gravação da minha voz quando
ainda era mais novo ainda.
Nadei muito.
A rua 12 foi meu acolhimento durante anos, vizinhos todos
como irmãos, todos eram uma grande pequena comunidade.
Ri, e ri muito, conversando do dia durante ao entardecer
sentado na calçada do lado de fora de casa,
Sinto muito amor por aquela época, sinto muito amor pelas
pessoas dessas memórias,
Lembro de como a luz estava em cada momento.
Eu sou feliz, a vida não é fácil, mas é bom lembrar que ela está
sendo linda.